domingo, 12 de junho de 2011

Panelas


Abri o armário. Uma panela de ferro com tampa de vidro. Outra de vidro com tampa de alumínio. A de alumínio com tampa de teflon. Teflon não tinha cabo nem alças mas tinha sua outra tampa.Panelas velhas sem tampas qualquer. Panelas novas com tampas trocadas.
Delicadamente fui derrubando uma a uma. Não era possível que com tantas sugestões a olhos nus, não enxergavam cada qual para si, sua outra parte.
Quando percebi minha contrariedade, semelhante à solidão empurrei o armário. Primeiro para que tudo que pudesse quebrar, estourasse. Depois porque vai que os garfos de cabo de madeira querem as facas de acrílico? E as colheres de chá? E se elas quiserem de uma hora pra outra serem colheres de sopa? Tem as promíscuas xícaras, de todos os tamanhos, as travessas que religiosamente viraram pó. Tudo destituído de sua ordem, pude estar aliviado. Como cada qual estava em vagabundo acordo de caos, instalei a minha forma de desorganizar o óbvio.
Portanto não venham pedir ou reivindicar o antes, o que era possível.
Para que as panelas encontrem o gemelar de sua parte vão correr o mundo novamente. Em busca daquilo conhecido como aquilo que lhes fazem inenarrável falta.

Ps.: Sou panela de pressão. Só me salvei porque estava no fogão. E porque sendo quem eu sou não caibo em outras panelas. Diferente das outras.

Sin Rumbo

Desci com muita pressa nesse raro dia frio. Com uma blusa sangrando de tamanho vermelho e um cachecol azul marinho. Do outro lado da rua, no alto de um predinho antigo umas luzes âmbar invadindo toda a escuridão da Avenida Anhaguera. Entrei. Lá em cima, uma moça de sorriso jovial, brincos de cores pulsantes contratavam o ar moderno de quem diz: " hey, seu nome tá na lista?"
O meu não estava. Estava nas listras. Da parede, dos tecidos, dos cabelos africanos, da soul music que cortava a navalhadas a pista de dança. Uma voz negra quando cantando a dor...
Um gole de gin seco. Combinei de ficar ali na portaria meia-luz-vermelha com ares de traição, alegria. Uns subiam, outros desciam. O gin logo compartido levou as mulheres a seu estado original de graça. E eu, tirei o cachecol, fechei os olhos. Dancei, olhei, contemplei a mim mesmo. Presentei-me com o prazer de ser eu mesmo uns minutos. Meu sorriso infantil, meu tudo com fragmentos para os próximos anos.
Desejo a mim mesmo o charme de um riso alcólico com essas mulheres. Todas elas tão quanto eu, Sin Rumbo mas com cumplicidade de ser lá da janelinha de vento gelado, os melhores recortes de uma sexta-feira desta não-cidade. Este lugar nos deve algo. Caro, caríssimo. Hoje não, mas vamos cobrar.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Ouça:

Cedo, abri as janelas. Vi esta cidade sem graça acontecer. Parei, olhei-me no reflexo de uma vitrine. Manchinhas no meu rosto, um sorriso ocluso. Esmagador fim de semana quando me descobri nascido pra ouvir. Ouvir sem esperar da vida melhor situação para sorrir. Amanhã começa nova data, mais um ano de vida, no anônimo jeito para dizer a mim mesmo: "É teu o dever da solidão?"
Por trás dos pretos óculos de sol (sem sol), a distância entre a imagem, a lágrima e o vento meio frio conspirou para um todo meio nada, de um monte de pouca coisa das emoções desgastadas de iguais verbos conjugáveis, que desta vez optou somente pela escuta. Aqueles aos quais dei ao préstimo de ser bom ouvinte, concluo: estão bem. Muito bem. A partilha de um cantinho de boa subjetividade deu para entender de que eu estou a algumas lacunas de igual felicidade, quando vinho, água, sorrisinhos lerdos estão mais a serviço deles do que de mim. Já é tempo pra renunciar? Não sei. De fato, não sei.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Dos céus a luz do meu desabrochar


Ele se olhava no espelho. Não sabia por qual razão mas gostava de ver como se expressava chorando. Digamos, era sua terapia particular. Com os olhos fixos na alma poderia entender por que passava por aquelas provações. As marcas acentuadas no rosto, ainda meio que leves já davam sinais de que o tempo pedia aos berros uma pontinha de amor próprio. A tal delícia de ser o que é.
Saiu de casa e foi se encontrar com amigas. Essencialmente parecidas, essencialmente marcadas por dores parecidas, o copo de cerveja no bar deu a todos os presentes um sorriso que dizia: por que não parar simplesmente e de luzes apagadas deixar o silêncio acalmar tudo?
Andando pelas calçadas, agora sozinho, descobria o viés da primeira solidão necessária. Não pensava nem queria crer em frases de revolução intíma. A consciência de saber que precisa transformar-se já é insconscientemente dolorosa. O mundo naquele instante pareceu de imenso vácuo... Do mesmo que se encontra nas estrelas. Nestas horas uma centelha do amor começou a nascer. Porque ali no jardim, olhando as flores foi que aprendeu: a vida é demasiada generosa para o nosso desabrochar. O que fazem essas plantas tamanha exuberância pedindo tão pouco pra viver? Concluiu que era a luz... o elemento que faltava.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Personartis

Assim se procedeu a conversa:

Eu sei... Buenos Aires q reflita sobre isso...
foi naquelas ruas q eu me sentia qdo a saudade de ti me corroía por dentro
eu imaginava o frio como uma bela paisagem e carregado das dores ele mesmo nem sabe porque provocar
entre o belo e a dor, a liberdade de está contigo onde quer que tua voasse..as coisas te chegam e te levam para lugares que eu mesmo duvido
e eu aqui te vendo de dedos livres e mãos atadas
sem saber qdo é que voltas
tenho medo de não me conheceres

Não pude deixar de me contentar em imensa alegria, quando da dor e do verbo nasceu o que chamo de personal-art, porque só assim colocamos certas coisas nos seus devidos lugares.

De Janaína Soul, a melhor escritora iniciante que eu conheço.

Soul- Do inglês, espírito, alma, essência, parte principal

Desculpe... ando meio desacreditada de mim.
Isso foi a primeira coisa que ela me disse depois de severas e curtas insistências. "Mas seu tivesse o dom dos meus grandes amigos, escreveria a solidão da madrugada de um andarilho urbano" Aí indaguei: Então escreva! O andarilho está frustrado simplesmente porque não está andando em lugar nenhum.
Gosto de suas personagens
elas me deixam mais perto do teatro
umas das minhas primeiras paixões...
me fale dela? Como vou falar dela quando falo com o desejo de minha propria inspiração?
Disso eu me assegurei que ela sabia. Aliás sentia também.
Mas acho que não porque ela terá de se libertar das sentenças como Isso me incomoda de tal forma, que eu num consigo fazer nada além de ficar num estado de tristeza profunda.

No íntimo
Entrego a ela
O meu licor de inspiração

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Para sempre com você Oh My Dindi!


Foi assim, com um tchau, que ele se levantou e desceu do ônibus. Olhou pro moço lá fora e com um sorrisinho meia-boca deu a seguir seus pensamentos. Pensou: " E seu eu me casasse com esse tipo?" Enquanto pensava nisso e fantasiando um monte de outras coisas, Astrud Gilberto cantava Dindi . Juntou duas situações e começou a prestar atenção na parte que dizia "...If I only had words I would say all the beautiful things that I see when You're with me". Viu-se vestida de noiva saindo nos braços dele em plena segunda-feira de chuva, tal qual era o dia de hoje. Molhados poderiam rir... Sentados na escadaria da igreja comendo um bombom. Isso tudo, ela ria muito. Não era lá muito típico as mulheres pensarem seus casamentos assim, molhadas e comendo chocolate. Mas foi assim que seu coração e imaginação concebia seu instante de felicidade. Quando a música acabou, fechou os olhos, rendia-se aos pinguinhos de chuva que passava pelas frestas da janela. Sozinha, abraçou a si mesma. E pedia que fosse com ele. O resto de todos os seus dias. Fazer da simplicidade sua bandeira de amor.